domingo, 31 de outubro de 2010

Sinais do Homem Espiritual

O melhor de A. W. Tozer

O conceito de espiritualidade varia entre os diversos grupos cristãos. Em alguns círculos, a pessoa que fala incessantemente de reli¬gião é julgada como sendo muito espiritual. Outros aceitam a exube¬rância ruidosa como um sinal de espiritualidade, e em algumas igrejas, o homem que ora em primeiro lugar, por mais tempo e mais alto consegue uma reputação de ser o mais espiritual na assembléia.

Um testemunho vigoroso, orações freqüentes e louvor em voz alta podem entrosar-se perfeitamente com a espiritualidade, mas é importante entendermos que em si mesmos eles não constituem nem provam a presença da mesma.

A verdadeira espiritualidade manifesta-se em certos desejos dominantes. Eles são desejos sempre presentes, fixos, suficientemente poderosos para dominar e controlar a vida da pessoa. Para facilitar, vou mencioná-los, embora não me esforce para decidir sua ordem de importância.

1. Primeiro, o desejo de ser santo em lugar de feliz. A busca da felicidade, tão difundida entre os cristãos que professam uma santidade superior e prova suficiente de que tal santidade não se acha presente. O homem verdadeiramente espiritual sabe que Deus dará abundância de alegria no momento em que possamos recebê-la sem prejudicar nossa alma, mas não exige obtê-la imediatamente. John Wesley falou a respeito de uma das primeiras sociedades metodistas da qual duvidava terem seus membros sido aperfeiçoados em amor, pois iam à igreja para apreciar a religião em lugar de aprender como tornar-se santos.

2. O indivíduo pode ser considerado espiritual quando quer que a honra de Deus avance por meio de sua vida, mesmo que isso signifique que ele mesmo tenha de sofrer desonra ou perda temporárias. Um homem assim ora: "Santificado seja o teu nome", e acrescenta baixinho: "Qualquer seja o custo para mim, Senhor". Ele vive para honrar a Deus, através de uma espécie de reflexo espiritual. Cada escolha envolvendo a glória de Deus, para ele já está feita antes de apresentar-se. Não é necessário que debata o assunto em seu íntimo, pois nada há a discutir. A glória de Deus é necessária para ele; ele a aspira como alguém sufocando-se aspira o ar.

3. O homem espiritual quer carregar a sua cruz. Muitos cristãos aceitam a adversidade ou a tribulação com um suspiro e as chamam de sua cruz, esquecendo de que tais coisas podem acontecer tanto a santos como a pecadores. A cruz é aquela adversidade extra que surge como resultado de nossa obediência a Cristo. Esta cruz não é forçada sobre nós; nós voluntariamente a tomamos com pleno conhecimento das conseqüências. Nós decidimos obedecer a Cristo e fa¬zendo essa escolha, decidimos carregar a cruz.

4. O cristão espiritual é também aquele que tudo observa sob o ponto de vista de Deus. A capacidade de pesar tudo na balança divina e dar-lhes o mesmo valor dado por Deus, é o sinal de uma vida cheia do Espírito.

Deus olha para tudo e através de tudo ao mesmo tempo. Seu olhar não repousa sobre a superfície mas penetra até o verdadeiro significado das coisas. O cristão carnal olha para um objeto ou uma situação, mas pelo fato de não ver através dela fica entusiasmado ou deprimido pelo que vê. O homem espiritual tem capacidade para ver através das coisas como Deus vê e pensar nelas como Ele pensa. Ele insiste em ver tudo como Deus vê, mesmo que isso o humilhe e exponha a sua ignorância até o extremo de fazê-lo sofrer.

5. Outro desejo do homem espiritual é morrer retamente em lugar de viver no erro. Um sinal seguro do homem de Deus amadurecido é de sua despreocupação com a vida. O cristão terreno, consciente do corpo, olha para a morte com terror no coração; mas à medida que continua vivendo no Espírito torna-se cada vez mais indiferente ao número de anos que vai viver aqui embaixo, e ao mesmo tempo cuida cada vez mais do modo como vive enquanto está aqui. Não irá comprar alguns dias extra de vida ao custo da transigência ou fracasso. Quer acima de tudo ser reto, e fica feliz em deixar que Deus decida quanto tempo deve viver. Ele sabe que pode morrer agora que está em Cristo, mas sabe que não pode agir erradamente, e este conhecimento torna-se um giroscópio que dá estabilidade aos seus pensamentos e seus atos.

6. O desejo de ver outros progredirem com sua ajuda é outro sinal do homem que possui espiritualidade. Ele quer ver outros cristãos acima de si e fica feliz quando estes são promovidos e ele negligenciado. Não existe inveja em seu coração; quando seus irmãos são honrados fica satisfeito, por ser essa a vontade de Deus e essa vontade é seu céu na terra. O que é agradável a Deus lhe dá também prazer, e se for do agrado de Deus exaltar outrem acima dele, satisfaz-se com isso.

7. O homem espiritual faz no geral juízos eternos e não temporais. Pela fé supera o poder de atração da terra e o fluxo do tempo e aprende a pensar e sentir como alguém que já deixou o mundo e foi juntar-se à imensa companhia dos anjos e à assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, Um homem assim preferiria ser útil e não famoso, servir em lugar de ser servido.

Tudo isto se realiza pela operação do Espírito Santo que nele habita. Homem algum pode ser espiritual por si mesmo. Apenas o Espírito da liberdade pode tornar o homem espiritual.



VÃO PARA O CÉU OS RELIGIOSOS?

Mateus 7:21-29

Quando João Batista, o precursor, apresentou o Senhor Jesus Cristo a Israel, apresentou-o como Salvador e Rei. João apontou para ele, e disse: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" (João 1:29). Noutra ocasião, disse: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mateus 3:2). Jesus Cristo foi apresentado como Salvador e Soberano. Ambos esses ofícios demandam completa submissão à autoridade daquele que é Salvador e Rei. Por isso que Jesus Cristo é chamado de Senhor Jesus Cristo. Ele é que tem o direito de ser obedecido. Enquanto os homens não se submeterem a ele, não será Salvador nem Rei. Ele é o Senhor Jesus Cristo.

A fim de estabelecer sua autoridade e demonstrar ao mundo que tem o direito de ser o Senhor Jesus Cristo, ele realizou muitos milagres. Obviamente, esses milagres não foram realizados mediante poder humano, mas por autoridade divina. A nação tinha provas de que Aquele apresentado como Salvador e Soberano era o Senhor.

Como Messias, ele impôs certas condições aos que professavam o desejo de entrar no seu reino. Ele tinha vindo para governar em paz e justiça. Era um governante assim que Israel aguardava desde os tempos do Antigo Testamento, pois os profetas haviam predito que Deus enviaria o Messias para redimir o povo e instituir um reino. Ouvindo a nação as palavras de Jesus e vendo os seus milagres, discutia o povo a possibilidade de ser este o Prometido de Deus, o Messias.

Como Soberano, ele fez certas exigências aos que desejassem entrar no seu reino. Deviam ser justos; no seu reino não havia lugar para a injustiça. O povo congregou-se ao seu redor para que ele explicasse exatamente que tipo de justiça ele exigia.

Nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus ele revelou ao povo que era necessário uma justiça procedente de Deus, que resulta da fé, uma justiça que excede a dos escribas e fariseus. Ninguém o contestou dizendo que ele não tinha autoridade como Senhor de apresentar as condições pelas quais as pessoas são recebidas no seu reino. Ele rejeitou a interpretação que os fariseus davam à lei; rejeitou igualmente a prática da lei segundo os fariseus como sendo a verdadeira justiça. Mostrou ao povo que a única justiça que ele e seu Pai aceitavam era a que se conformava à revelada no caráter de Deus e obtida pela fé.

Ao concluir sua mensagem às multidões, Jesus proferiu uma advertência: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade" (Mateus 7:21-32). O Senhor não dirigiu esta advertência a indivíduos irreligiosos. Ele dirigiu-a a pessoas obsedadas com a mecânica da religião. Porém deixou bem claro que não é por serem religiosos que os indivíduos vão para o céu. Os religiosos não são aceitos na base de sua religião, no reino sobre o qual Jesus Cristo governará. Ele não aceitará todo aquele que profere a palavra "Senhor".

Obediência é o sinal da verdadeira fé. Jesus Cristo deixou isso claro quando disse: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus." Se alguém não obedece àquele que ele chama de Senhor, sua desobediência mostra que tal indivíduo não o possui como Senhor. O teste que determina se Jesus Cristo é Senhor na vida de alguém é sua obediência à ordem daquele a quem chama de Senhor.

É possível que os que diziam "Senhor, Senhor!", mas andavam em desobediência, fossem religiosos. Pode ser que observassem a lei meticulosamente conforme os fariseus a interpretavam. Muitos deles haviam profetizado, isto é pregado. Haviam cumprido a função profética do Antigo Testamento de declarar de público a verdade que Deus revelara. Além disso, haviam expelido demônios. Haviam realizado façanhas sobrenaturais. Ademais, em nome de Jesus haviam feito muitas obras maravilhosas ― haviam imitado os milagres que o próprio Cristo realizara (Mateus 4:23-25). Não demonstraria isto que essas pessoas estavam salvas, pois como poderia alguém pregar, expulsar demônios e realizar milagres, e ainda estar perdido? Contudo, Cristo disse que estavam.

Jesus Cristo disse: "Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade." O Senhor classificou toda prática religiosa não executada por fé como iniqüidade (v. 23), uma declaração forte e surpreendente. Multidões incrédulas reúnem-se em lugares de adoração e repetem a mecânica da religião. Acha você que Deus se agrada de que os homens tirem o chapéu para ele? Ele chama a isso de iniqüidade. Multidões, pelo poder de Satanás, podem realizar grandes feitos. Deus chama a isso de iniqüidade. A única coisa aceitável a Deus é a justiça que resulta da fé. A fé genuína produz obras; produz obediência, que é a demonstração de fé.

Vemos esta verdade em Tiago 2:14-20: "Qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?

Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?" Pode aquilo que se chama de fé, mas não funciona, salvar alguém? A resposta é: claro que não. "Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa, e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos, e fartai-vos, sem, contudo, lhes dardes o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?" A resposta é: nenhum. Sua palavra não os satisfará. "Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. Mas alguém dirá: "Tu tens fé e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras; e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé." Tiago está ressaltando que o único meio de se conhecer a autenticidade da fé é ver o que ela produz. "Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem, e tremem. Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante [infrutífera, estéril, improdutiva]?"

A fé é viva. O que é vivo se reproduz. Não haver fruto na vida da pessoa é prova de que a raiz está morta; aquilo que se chama fé e não produz obediência nem os frutos da justiça não é fé aos olhos de Deus. Toda prática e serviço religiosos que não se originam de obediência a Jesus Cristo como Senhor não passam de iniqüidade e são rejeitados. Sem obras não pode haver certeza de salvação.

O homem não é salvo por fazer de Cristo o Senhor. Ele é salvo pela fé naquele que é o Senhor Jesus Cristo. Mas o indivíduo salvo demonstrará sua submissão ao Senhor Jesus Cristo pelas obras resultantes de uma fé viva.

É muito significativo que em nossos dias vejamos ondas de obras sobrenaturais feitas em nome da religião. Multidões do povo de Deus se deixam enganar, crendo que os que realizam obras assim chamadas de sobrenaturais devem ser filhos de Deus. Essa é uma tapeação de Satanás; pois, enquanto o indivíduo não se submeter em obediência ao Senhor Jesus Cristo, o que ele fizer (muito embora seja uma importante obra religiosa) é chamado de iniqüidade.

Enquanto a pessoa não se submeter à autoridade de Jesus Cristo, o que ela fizer em nome da religião Deus considera como iniqüidade, e não como boas obras. Precisamos tomar cuidado para que não nos enganemos com as obras que Satanás pode produzir por meio de um dos seus, mascarado de filho de Deus. A religião não salva; as formas de religião não provam que o homem está salvo, a menos que sua vida demonstre submissão ao Senhor Jesus Cristo.

As necessidades humanas nunca serão satisfeitas pela observância de formas religiosas vazias, nem por seguir falsos mestres, não importa quão religiosos pareçam. As necessidades humanas só podem ser satisfeitas por meio de uma Pessoa, o Senhor Jesus.


J. Dwight Pentecost - O Sermão da Montanha

sábado, 30 de outubro de 2010

Wesley L. Duewel - Em Chamas para Deus



Seja Cheio com o Espírito

Não existe um mandamento mais abençoado na Palavra para você como cristão do que "enchei-vos do Espírito" (Ef 5:18). Ele é paralelo e subjacente ao mandamento de Cristo a Seus discípulos para que não começassem o seu ministério até serem revestidos com poder do alto (Lc 24:48). Eles deveriam aguardar até serem batizados com o Espírito Santo (At 1:4-5). Quando isto foi cumprido no dia de Pentecostes, outro termo foi usado. Eles ficaram "cheios do Espírito Santo" (At 2:4). Pedro explicou que esta promessa do Pai não era só para os 120, mas disse ele: "para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isso é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar" (At 2:39).

Quando Pedro explicou que os romanos na casa de Cornélio haviam recebido a mesma experiência que os 120 no Pentecostes, ele disse que o coração deles estava purificado pela fé (At 15:8-9). Os dois elementos essenciais são, portanto, pureza e poder. As manifestações externas do Espírito podem ser variadas ou não estar presentes de forma alguma. Mas a necessidade essencial de cada um de nós é pureza e poder.

J. Gregory Mantle pergunta: "Uma coisa é ter o Espírito e outra muito diferente é estar 'cheio' do Espírito. Você pode estar cheio, como a árvore na primavera fica cheia de seiva; cheia no caule, cheia nas folhas. Você pode estar cheio do Espírito, como o ferro em brasa está cheio de fogo. Você pega o ferro, ele está frio, duro e negro. Você o coloca no fogo e o fogo entra nele, e em breve o fogo muda a sua cor. Esse ferro quase branco está agora possuído pelo fogo, interpenetrado pelo fogo dentro dele. É assim que somos cheios?"

É possível que você jamais tenha sido verdadeiramente enchido pelo Espírito. Cada pessoa no momento do novo nascimento recebe o Espírito Santo; assim sendo, cada verdadeiro cristão tem a habitação interior do Espírito (Rm 8:9). Todavia, o Espírito não enche você totalmente até que tenha feito uma entrega total do seu ser a Ele. Paulo se refere a isto como oferecer-se em sacrifício vivo (Rm 12:1). Só um cristão nascido de novo pode fazer isto.

O Espírito Santo não faz uma obra de purificação, santificação, enchimento e capacitação em ninguém que esteja em rebelião contra Deus. Primeiro o pecador deve ser regenerado e vivificado em Cristo. A seguir ele pode apresentar-se como sacrifício vivo para ser cheio, purificado e capacitado. Recebemos todo o Espírito no momento da salvação, mas Ele não opera todo o Seu ministério em nós ao mesmo tempo.

DETERMINAÇÃO DO ENCHIMENTO

Ser cheio com o Espírito é mais do que ter uma inclinação espiritual. Até certas pessoas não-salvas têm fome espiritual e são "espiritualmente inclinadas". Elas estão talvez em busca de Deus, de acordo com a sua luz. Mas, como Apoio, precisam conhecer mais adequadamente o caminho de Deus (At 18:26).

Não temos uma vida cristã até que venhamos a nascer de Deus. Não vivemos uma vida cheia do Espírito até sermos cheios do Espírito. Todavia, tendo feito uma entrega total do "eu", uma consagração completa como filhos de Deus, podemos ser cheios com o Espírito à medida que nos apropriamos da Sua plenitude pela fé. A seguir, enquanto nos mantemos abertos para o Espírito pela obediência e fé, podemos receber novos enchimentos do espírito, novos derramamentos, novas inundações de nosso ser mais íntimo, de tempos em tempos, conforme necessário e conforme pedirmos a Deus.

O primeiro passo decisivo e importante é o de colocar obedientemente de lado tudo que possa prejudicar a obra do Espírito, separando-nos de tudo que o Espírito nos mostre com a sua luz perscrutadora, rendendo-nos em total entrega que anseia por tudo que a graça de Deus pode fazer em nossa vida, e alegremente reivindicando pela fé todas as graciosas promessas de Deus. Devemos esvaziar-nos do "eu" antes de sermos enchidos com o Espírito. Nossa vontade carnal deve ser crucificada com Cristo. Entraremos então nessa nova e vitoriosa experiência cristã descrita de tantas formas: vida mais profunda, vida mais elevada, vida crucificada, vida vitoriosa, vida santa ou vida de repouso.

Louvar a Deus por tudo que Ele já fez por nós pode dar-nos a consciência das fraquezas que sabemos que Deus pode mudar pelo Seu poder, derrotas que sabemos que Ele pode transformar em vitória, e talvez contaminações que sabemos que Cristo pode purificar com o Seu sangue. Sabemos que temos a habitação interior do Espírito, mas compreendemos que o Espírito pode e deve possuir-nos mais completamente. Compreendemos agora o que Cristo quis dizer em João 14:17 com relação ao Espírito Santo. Antes de os discípulos terem o seu Pentecostes, Ele contrastou o relacionamento que eles tinham no momento com o Espírito com aquele que teriam depois do Pentecostes: "Ele habita convosco e estará em vós".

Tenha bom ânimo. O Espírito está dirigindo você para um novo passo e grau de consagração, de modo que a soberania de Cristo em seu interior possa ser muito maior do que você jamais imaginou ser possível. O Espírito está tornando você faminto daquilo que Ele deseja fazer em seu íntimo.

TESTEMUNHOS DO ENCHIMENTO

George Fox, fundador da Sociedade dos Amigos, nasceu de novo aos onze anos. Mas, aos vinte e três anos, depois de ter ansiado por uma experiência mais profunda, uma nova concessão de poder veio sobre ele.

A partir dessa ocasião, ele foi usado poderosamente por Deus, enquanto descrevia repetidamente o poder do Senhor nele e através dele. O poder do Espírito o revestia onde quer que fosse, e até a sua morte foi um poderoso instrumento nas mãos de Deus.

John Bunyan, depois de uma juventude tempestuosa e pecadora, foi convertido certa noite em que o Espírito Santo aplicou Hebreus 2:14-15 ao seu coração. Depois de um andar jubiloso com o Senhor ele lutou dois anos com Satanás. Deus finalmente usou 1 João 1:7 ("o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado"), e ele entrou na sua experiência da "Terra de Beulá". Embora passasse por provações, a partir de então sentiu-se esmagado pelo peso da graça e do poder de Deus. Deus usou-o poderosamente, durante seus doze anos de prisão, nos quais ele escreveu seus famosos livros.

William Penn, o famoso quacre que fundou a Pensilvânia, era um grande conquistador de almas. Ele nasceu de novo aos doze anos e aos vinte e dois consagrou-se plenamente e foi cheio com o Espírito depois de ouvir uma mensagem feita por um pregador quacre. Ele conta a respeito. "Paulo ora para que [os Tessalonicenses] possam ser completamente santificados... E quanto ao meu testemunho fiel... seja sabido de todos que me conheceram, que quando as indizíveis riquezas do amor de Deus me visitaram... fui imediatamente dotado de poder que me deu domínio sobre elas (isto é, sobre a conversação e os hábitos mundanos)".

John Wesley, depois de anos como cristão sincero, mas apenas nominal, incluindo o ministério tanto em sua terra natal como na América, nasceu maravilhosamente de novo com uma clara segurança da salvação em 24 de maio de 1738, num culto dos morávios na Aldersgate Street, em Londres. Mais tarde, nesse mesmo ano, ele começou a desejar uma experiência ainda mais profunda. Em 1º de janeiro de 1739, como já mencionei, ele, seu irmão Charles, George Whitefield e cerca de 60 outros continuavam em oração. Cerca das três da manhã, Deus derramou o Seu Espírito sobre eles de maneira poderosa. Numa tremenda capacitação, unção e plenitude do Espírito enviou os Wesleys e Whitefield para abrir uma trilha de salvação e reavivamento através das Ilhas Britânicas e nas colônias norte-americanas. O Espírito Santo continuou a mostrar o seu poder através de John Wesley até sua morte triunfante em 2 de março de 1791.

George Whitefield, que colaborou por algum tempo com os Wesleys, teve uma clara experiência do novo nascimento antes deles. Seus velhos amigos o julgaram insano por ser tão zeloso por Cristo. Mais tarde, ele passou dias e noites em oração e jejum por causa da sua batalha com o orgulho e outros defeitos íntimos. Mas Deus o abençoou grandemente e ele escreveu: "Oh! com que alegria minha alma se encheu, quando o peso do pecado se foi; uma sensação permanente do amor perdoador de Deus e uma plena segurança da fé penetraram em minha alma desconsolada!".

Mais tarde, na sua ordenação em 20 de junho de 1736, ele foi poderosamente cheio do Espírito Santo. Whitefield passara o sábado inteiro jejuando e orando e à noite foi para um monte fora da cidade onde orou por mais duas horas. No domingo ele levantou-se cedo para orar, a fim de preparar-se para a sua ordenação no altar da igreja. "Quando o bispo colocou as mãos sobre a minha cabeça", ele testemunhou mais tarde, "meu coração se derreteu e ofereci todo o meu espírito, alma e corpo para o serviço do santuário de Deus."

O Dr. Lloyd-Jones escreve:

Whitefield nos conta que percebeu, no seu Culto de Ordenação, o poder que vinha sobre ele. Ficou vibrando com a sensação de poder. No primeiro domingo depois da sua ordenação ele pregou na sua própria cidade... e foi um culto surpreendente (15 pessoas foram poderosamente convencidas e convertidas)... Os subseqüentes diários de Whitefield e suas várias biografias contêm inúmeros relatos de sua percepção do Espírito de Deus vindo sobre ele enquanto pregava, e também em outras ocasiões.

Lembre-se de que, até que surgisse o movimento pentecostal do século XX e se adotassem "batismo com o Espírito" ou "batismo no Espírito" como termos para uma experiência acompanhada pelo falar em línguas, essas designações eram geralmente usadas para o enchimento do Espírito. Moody, Torrey, Finney e muitos outros falavam constantemente dessa forma. Diversos professores bíblicos preferem não usar o termo "batismo" para o enchimento, a fim de evitar confusão com os ensinos das igrejas pentecostais. Charles G. Finney era um jovem advogado que durante dois dias lutou com Deus sob a profunda convicção do pecado. Em 10 de outubro de 1821, ele foi para um monte fora da cidade e passou toda a manhã em oração. Ele estava decidido a encontrar Deus ou morrer na tentativa e finalmente apegou-se à promessa de Deus em Jeremias 29:13. Deus levantou o fardo do pecado e o encheu de paz. Naquela noite teve uma visão de Cristo, caiu aos pés dEle e os banhou com lágrimas. Ele descreveu o que aconteceu a seguir:

Recebi um poderoso batismo do Espírito Santo. Sem esperar, sem jamais ter pensado nisso, que pudesse haver tal coisa para mim, sem qualquer memória de já ter ouvido isso mencionado por qualquer pessoa no mundo, o Espírito Santo desceu sobre mim de um modo que pareceu atravessar-me, corpo e alma. Eu podia sentir a impressão, como uma onda de eletricidade, traspassando-me muitas vezes. De fato, ela parecia vir em ondas de amor líquido, pois não posso definir a sensação de qualquer outro modo. Parecia o próprio sopro de Deus. Posso lembrar distintamente que era como se me abanasse, como asas imensas.

Não há palavras para expressar o amor esplendoroso que se espalhou em meu coração. Chorei alto com alegria e amor... Essas ondas continuavam vindo, uma após outra, até que me lembro de ter gritado "Morrerei se essas ondas continuarem passando sobre mim". Eu disse: "Senhor, não agüento mais", todavia, não tinha qualquer medo da morte. (2)

Dwight L. Moody já havia sido grandemente usado por Deus em Chicago. Duas humildes mulheres da Igreja Metodista Livre oravam fielmente por ele durante os seus cultos de domingo. No final dos cultos elas lhe diziam: "Estivemos orando pelo senhor". "Por que vocês não oram pelo povo?", perguntava o Sr. Moody. "Porque o senhor precisa do poder do Espírito", foi a resposta. "Preciso do poder!", disse ele relatando o incidente mais tarde: "Eu julgava ter poder. Tinha a maior congregação de Chicago e havia muitas conversões!"

Certo dia Moody disse a elas: "Gostaria que explicassem o que querem dizer". Elas então lhe contaram sobre o enchimento definido do Espírito Santo. Ele pediu-lhes que orassem com ele e não só por ele. Pouco depois as suas orações foram repentinamente respondidas na Wall Street em Nova Iorque. O colaborador de Moody, Dr. R. A.Torrey, descreveu o ocorrido. "O poder de Deus caiu sobre ele enquanto andava pela rua e teve de correr para a casa de um amigo e pedir um quarto onde pudesse ficar sozinho, e ali ficou durante horas. O Espírito Santo veio sobre ele, enchendo sua alma de tanta alegria que, finalmente, teve de pedir a Deus para suspender a Sua mão, para que não morresse ali mesmo de pura alegria. Ele foi embora daquele lugar com o poder do Espírito Santo sobre a sua pessoa."

O próprio Moody disse: "Eu estava chorando todo o tempo, pedindo a Deus que me enchesse com o Seu Espírito. Bem, certo dia, na cidade de Nova Iorque — oh, que dia! — não posso descrevê-lo... só posso dizer que Deus se revelou para mim, e tive tal experiência do seu amor que foi preciso pedir-lhe para suspender a sua mão. Voltei a pregar. Os sermões não eram diferentes; não apresentei novas verdades; todavia, centenas de pessoas foram convertidas. Não queria voltar ao ponto em que estava antes dessa bendita experiência, nem que me dessem o mundo inteiro."

Numa outra ocasião Moody testificou:

“Que Deus me perdoe se falo de maneira vaidosa, mas não me lembro de nenhum sermão depois disso em que Deus não me desse alguma alma. Eu não voltaria ao lugar em que estava há quatro anos por todo o dinheiro deste mundo. Se você o juntasse aos meus pés, eu o chutaria para longe como se fosse uma bola de futebol. Pareço um prodígio para você, mas pareço ainda mais prodigioso para mim mesmo do que para qualquer outra pessoa. Esses são os mesmos sermões que preguei em Chicago, palavra por palavra. Ali eu preguei e preguei, mas era como alguém dando socos no ar. Não se trata de novos sermões, mas do poder de Deus. Não é um novo evangelho, mas o velho evangelho com o Espírito Santo de poder”.

No funeral de Moody, o Dr. C. I. Scofield, editor da famosa Bíblia Scofíeld de Referência, deu quatro razões para Deus ter usado Moody. Para a terceira razão ele disse: "Ele foi batizado com o Espírito Santo e sabia disso. Essa foi para ele uma experiência tão definitiva quanto a sua conversão".

O Dr. J. Wilbur Chapman era um evangelista presbiteriano, colaborador de Moody e fundador da Conferência Bíblica do Lago Winona. Ele testemunhou com relação à mudança em sua vida e ministério através do enchimento do Espírito. "Desde aquele momento até hoje (o Espírito Santo) tem sido uma realidade viva. Eu jamais soube o que era amar a minha família antes. E como faria isso se não tinha ainda descoberto o segredo? Eu não sabia o que era pregar antes. 'As coisas antigas já passaram' é a minha experiência. 'Eis que se tornaram novas' ".

Oswald Chambers foi um grande professor bíblico desta experiência. Ele testificou: "O Dr. F. B. Meyer veio e falou conosco sobre o Espírito Santo. Decidi receber tudo o que podia e fui para o meu quarto, pedindo simples e definitivamente pelo seu Santo Espírito, o que quer que isso significasse". Ele disse que nenhum conhecido parecia capaz de ajudá-lo a confiar em Deus para esta experiência. Quatro anos mais tarde, Deus falou com ele através da Sua Palavra: "Lucas 11:13 falou comigo... compreendi que eu tinha de pedir o dom de Deus na autoridade de Jesus Cristo... isto eu fiz em obstinado compromisso. Não tive qualquer visão do céu ou de anjos... mas como um relâmpago algo aconteceu dentro de mim... os dias que se seguiram foram verdadeiramente o céu na terra. Glória a Deus — o último abismo do coração humano transborda com o amor de Deus. O poder e a tirania do pecado se foram e a emancipação radiante e indizível do Cristo interior surgiu".

O Dr. Arthur T. Pierson pastoreou durante vários anos o Tabernáculo de Spurgeon em Londres. Ele foi líder da Conferência Bíblica e de movimentos de Estudantes Voluntários, lecionando durante anos no Instituto Bíblico Moody. Durante dezoito anos de seu ministério ele dependeu grandemente do seu poder literário e de oratória. A seguir ele procurou e recebeu a plenitude do Espírito. Testemunhando diante de uma assembléia de ministros, declarou: "Irmãos, vi mais conversões e realizei mais nos dezoito meses depois que recebi essa bênção do que nos dezoito anos anteriores".

Esta é apenas uma amostra de líderes conhecidos, cujas vidas foram transformadas por uma experiência definida com o encher do Espírito. Milhares e mais milhares de outros líderes de todas as denominações podem dar testemunho de experiências similares definidas em seu andar com Deus. Algumas são mais dramáticas que outras, mas todas falam da graça absoluta de Deus e da prodigalidade da plenitude do Espírito.

Durante o grande reavivamento em Welsh (1904-5), Evan Roberts, tão grandemente usado pelo Espírito Santo, afirmou repetidamente: "É possível ir para o céu sem ter sido cheio com o Espírito Santo, mas você terá muito a perder diante do trono do julgamento de Cristo... Adquira o hábito de contar com a habitação interior do Espírito Santo como o maior fato da sua existência".

Vamos decorar as palavras de Hudson Taylor: "Não devemos suspender nossos feitos presentes e entregar-nos à humilhação e oração, pedindo nada menos que sermos cheios do Espírito e transformados em canais, mediante os quais Ele trabalhará com poder irresistível? As almas estão agora perecendo por falta deste poder... Deus está abençoando agora alguns que estão buscando esta bênção dEle pela fé. Todas as coisas estão prontas se estivermos prontos".

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quão bom deve ser o homem para entrar no céu?


 Mateus 5:17-20

Quão bom deve ser o homem para entrar no céu? Ninguém é tão depravado ao ponto de pensar que os maus irão para o céu. Reconhecemos instintivamente que o céu está reservado para os bons. A pergunta não é, pois: Os maus vão para o céu? e, sim: Quão bons devem ser os bons para entrar no céu?

Com essa pergunta defrontou-se nosso Senhor quando falava à multidão reunida para ouvi-lo:

"Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (Mateus 5:17-20).

Jesus Cristo foi apresentado à nação de Israel como seu Messias, Salvador e Rei. João Batista apresentou-o como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o Salvador. Também anunciou que o reino dos céus estava próximo. Jesus era o Soberano. Quando alguém se candidata a um cargo, desejando ganhar o favor daqueles sobre os quais espera ter autoridade, faz toda sorte de promessas. Na época de eleições há um dilúvio de promessas; as pessoas geralmente votam no candidato que faz as promessas mais eloqüentes. Mas Jesus, ao apresentar-se como Rei, não procurou que os homens o recebessem como tal mediante grandiosas promessas, nem prometendo-lhes um caminho fácil. Pelo contrário, ele inverteu o costume universal dos que desejam eleger-se. Em vez de facilitar as coisas, ele as dificultou, quando disse: "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir." Cristo não exigiu menos do que a lei; exigiu tudo quanto a lei requeria.

Tiago, que entendia a lei com muita clareza, fez uma declaração resumida do que ela exigia: "Pois, qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos" (Tiago 2:10). A lei exigia obediência absoluta, perfeita. Se alguém guardava toda a lei, mas violava um ponto mínimo, aos olhos da lei ele era culpado, e merecia ser sentenciado. A lei demandava perfeição absoluta.

Os judeus, ao se dirigirem ao Senhor Jesus, a fim de ouvirem as suas palavras, já tinham conhecimento das exigências da lei. Condenados e convictos à luz de tais exigências, buscavam uma via de escape. Esperavam que Jesus pusesse a lei de lado, bem como a santidade e a perfeição que ela requeria; esperavam que ele apresentasse um substitutivo, um acesso mais fácil à presença de Deus.

Tivesse Jesus posto de lado aquilo que eles não podiam realizar e lhes oferecido um acesso mais fácil à presença de Deus, de bom grado o teriam aceito. Porém nosso Senhor disse: "Não vim para revogar nada do que a lei exige. Vim para exigir que a lei seja cumprida em todos os seus aspectos." E disse mais: 'Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra."

O Senhor estava usando uma figura muito conhecida da língua hebraica ou aramaica. A menor letra do alfabeto hebraico, feita com um só golpe da pena, era o yod, ou o jota. Assim, nem uma letra de uma palavra deixará de ser cumprida. Para tornar a expressão mais vivida, nosso Senhor disse: "Nem um til jamais passará da lei." Duas letras do alfabeto hebraico são idênticas na forma, exceto que uma delas tem uma projeção minúscula usada na formação da letra. Em vez de a letra começar na linha perpendicular, ela começa ligeiramente para a esquerda, cruzando a linha perpendicular. Essa projeção minúscula chama-se til. Portanto, nosso Senhor disse, não somente que nenhuma letra da lei ficará sem ser cumprida, mas também que nem mesmo uma parte quase imperceptível de uma letra ficará sem cumprimento. Essas exigências são dele.

Voltemos ao Antigo Testamento e vejamos o caráter fundamental da lei, o seu propósito. "Então Josué disse ao povo: Não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados" (Josué 24:19). Ana orou: "Não há santo como o Senhor" (1 Samuel 2:2). Levítico 21:8 diz: "Portanto o consagrarás, porque oferece o pão do teu Deus. Ele [o sacerdote] vos será santo, pois eu, o Senhor que vos santifico, sou santo." O clamor dos anjos em Isaías 6:3: "Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos", é revelado aos homens através da lei.

Todos os seres angélicos contemplam a santidade de Deus-, mas os homens caídos, pecaminosos, devido à sua cegueira e separação, não podem contemplá-la sem que ela os consuma. Portanto, Deus revelou sua santidade refletindo-a num espelho. A lei foi esse espelho que protegia os homens de serem consumidos pelo brilho da glória divina. Mediante a revelação da lei, a humanidade saberia que Deus é santo. O pecado é pecado, não meramente porque causa dano à sociedade, ou a um de seus membros, ou ao que o comete. O pecado é pecado porque não se assemelha à santidade de Deus. Paulo define-o em Romanos 3:23: "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus", isto é, da glória de sua santidade. Tudo quanto não se assemelha à santidade de Deus é pecado. Visto que os homens vêem apenas o reflexo da glória divina e têm somente um reflexo de sua santidade, fez-se necessário que Deus lhes dissesse qual deveria ser a sua conduta. De modo que a lei revelou não somente a santidade divina mas também as exigências de um Deus santo aos que desejam andar em comunhão com ele.

O farisaísmo era um sistema inteligente criado para burlar as exigências da santidade de Deus e as demandas da lei. Os fariseus tinham a lei nas mãos. Conheciam a santidade divina ali revelada. Conheciam as exigências divinas tocantes à conduta dos justos, mas admitiam não poder atingir esse padrão. Portanto, imaginaram um sistema que, em essência, burlava as exigência da lei, possibilitando aos homens atingir um conjunto de padrões substitutivos. Diziam os fariseus que se alguém vivesse segundo a interpretação que eles davam à lei, seria aceitável a Deus.

Os fariseus haviam codificado as Escrituras em 365 mandamentos negativos e 250 positivos, e ensinavam que aqueles que observassem esses mandamentos, seriam aceitáveis aos olhos de Deus. Todavia, todos esses mandamentos relacionavam-se com a conduta exterior. A preocupação deles era com os atos externos. Interpretavam a lei de Deus para aplicá-la somente aos atos exteriores e nunca aos pensamentos que os geravam. Diziam ser errado assassinar, mas nada diziam sobre o ódio que produz o homicídio. Diziam ser errado cometer adultério, mas nada sobre a luxúria que causa o adultério. Diziam ser errado furtar, mas nada diziam sobre a cobiça que leva o homem ao furto. Enquanto a pessoa não fosse apanhada em algum delito, ela seria justa aos olhos dos fariseus.

Tal sistema deixa muito a desejar quanto às exigências da santidade divina. A nação gemia sob a tradição dos fariseus e não se julgava à altura nem mesmo da interpretação que eles davam à lei. O povo buscava alguém que o livrasse do peso do sistema farisaico. Apegando-se às palavras de Cristo, esperavam que ele os livrasse da responsabilidade de estarem à altura das tradições farisaicas e das invioláveis demandas da lei, e assim Deus os aceitasse como eram.

Jesus mostrou que o sistema dos fariseus é contrário à Palavra de Deus. E deu um exemplo específico: "Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe, e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, seja punido de morte. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, então o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãe, invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas semelhantes" (vv. 10-13). Segundo a lei de Moisés, quando o pai ou a mãe envelhecia e adoecia, não podendo prover para seu próprio sustento, cabia aos filhos a responsabilidade de sustentá-los. Era uma responsabilidade de origem divina. O sustento dos pais custava dinheiro. Os fariseus, amantes do dinheiro, não desejavam contribuir para o sustento dos pais segundo suas necessidades, como exigia a lei; daí que o farisaísmo inventou um meio de burlar a lei.

Reunidas aqui para ouvir a palavra do Senhor estavam pessoas que admitiam sua culpa, sua impureza aos olhos de Deus; confessavam sua incapacidade de corresponder aos padrões de santidade divina, mas buscavam uma saída fácil, na esperança de que Cristo lhes oferecesse tal saída. Cristo disse-lhes que a justiça dos fariseus nunca os conduziria à presença de Deus. De acordo com o padrão de bondade do mundo, teríamos de admitir que os fariseus eram homens bons, de boa conduta, morais, retos, religiosos. Mas Cristo disse: "Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus."

Até que ponto alguém precisa ser bom para ser aceito? "Nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra." Nosso Senhor estava dizendo que para ser aceito no céu é preciso ser tão bom como a santidade de Deus revelada na lei. O homem precisa ser bom como Deus, para ir para o céu.

Permanecemos culpados e condenados perante Deus, a menos que guardemos toda a lei. Mas, pela graça divina, mediante a morte de Jesus Cristo, foi provida a justiça para os pecadores. Foi derramado sangue para lavar a mancha do pecado. A justiça comunicada faz o homem tão justo quanto Jesus Cristo, de modo que um Deus santo pode olhar para aquele que permanece em Cristo, e dizer: "Esse me é aceitável." Agradáveis a si no Amado. Não há, no evangelho, expressão maior do que essa. Um Deus santo e justo nos fez agradáveis para estarmos em sua presença.

Os fariseus, reconhecendo a necessidade de justiça, buscaram provê-la por meio das obras. Falharam. Cristo rejeitou-os, bem como à sua justiça. Só lhes restava uma alternativa: receber a justiça do Senhor. Hoje os homens se defrontam com as mesmas alternativas. Ou providenciam justiça por si mesmos, o que ninguém está em condições de fazer, ou recebem-na como um dom do Senhor Jesus Cristo. Quão trágico é cair no caminho dos fariseus quando temos ao nosso dispor o caminho da vida!

J. Dwight Pentecost - O Sermão da Montanha


quarta-feira, 27 de outubro de 2010



A PRÁTICA DA ORAÇÃO

Mateus 6:6-15

Quando os homens assumem responsabilidades e não sabem como desincumbir-se delas, procuram ajuda. É muitíssimo natural irem em busca de auxílio no mundo que os cerca. Muitas vezes os padrões que o mundo ou os amigos lhes propõem distanciam-se muito daqueles estabelecidos na Palavra de Deus. Os discípulos viram o Senhor em oração e reconheceram que como filhos de Deus, tinham a responsabilidade de orar. Mas não sabiam como fazê-lo.

Os fariseus, baseados nos conhecimentos que tinham do Antigo Testamento, reconheciam a responsabilidade de orar. Entretanto, não se davam ao trabalho de examinar as Escrituras para ver como se devia orar, e por quê. Distorceram as formas e prática da oração de sorte que orar tornou-se outro meio de promover-se diante dos homens. Por isso o Senhor disse: "E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa" (Mateus 6:5). Ao condenar as falsas práticas dos fariseus, ele os chamou de "hipócritas".

A palavra hipócrita, no original, relaciona-se com o teatro. Significa "falar de sob uma máscara". Os atores usavam uma máscara para que os espectadores pudessem identificar o personagem que estava sendo representado. Um ator desempenhava diversos papéis numa peça, e se equipava com um bom número de máscaras diferentes. Quando ele representava o papel de alguém, segurava essa máscara diante do rosto; quando desempenhava outro papel, trocava de máscara. Não se podia ver a face do ator; só se via a máscara. O auditório não conhecia a pessoa; conhecia apenas o papel que ela desempenhava. Hipócritas eram, portanto, indivíduos que falavam "de sob uma máscara".

Os fariseus hipócritas eram corruptos, e seus corações uma fonte de perversidade; mas traziam a máscara de piedade diante do rosto para enganar os homens e fazê-los crer que eram algo que realmente não eram. Isto era singularmente verdadeiro quando oravam, pois não o faziam para honrar a Deus. Não oravam para humilhar-se. Oravam para crescer no favor dos homens. E não buscavam a Deus quando oravam. Para eles a oração não tinha objetivo, a não ser que houvesse uma grande audiência que eles pudessem impressionar com sua piedade, oratória e longas orações. Lá estavam eles em pé, com seus mantos esplendentes, os olhos voltados não para os céus para honrar a Deus nem para a terra, significando sua desvalia. Muitos ficavam em pé, olhando para a multidão e, obtida a aprovação desta, consideravam-se bem-sucedidos na oração.

Não tinham recompensa no coração ou contentamento por haverem gozado da relação com Deus. Sua única recompensa eram os parabéns ao término da oração. Quão fácil é cumprir aparentemente nossa responsabilidade para com Deus a fim de obter a aprovação dos homens, e não para modelar nossas ações segundo a Palavra e a vontade de Deus.

Os fariseus, em geral, não tinham a mínima idéia da oração em secreto. Era-lhes totalmente estranha. Consideravam-na um desperdício de tempo porque, se entrassem num quarto, fechassem a porta e orassem, a quem impressionariam? Por isso nosso Senhor instruiu os discípulos sobre o padrão de piedade na oração. Após mencionar a oração pública dos fariseus, ele disse: "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto [teu lugar secreto], e, fechada a porta [de modo que nenhum olho veja o que tu fazes a sós com Deus], orarás a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará" (v. 6).

O Senhor procurou impressionar seus ouvintes com a verdade de que a oração é, em essência, uma comunicação particular entre um filho e o Pai. Duas pessoas que se amam precisam de privatividade para comunicar-se adequadamente. Em público há pouca possibilidade de verdadeira comunicação. Muita coisa se pode comunicar em momentos de intimidade. No burburinho da vida é impossível a comunicação com o Pai, a menos que haja momentos a sós com ele. Por isso o Senhor disse que se a pessoa deseja comunicar-se com o Pai é preciso entrar no quarto e fechar a porta. Um olho curioso pode estragar a comunicação. Tão logo percebamos alguém a observar-nos, lá se vai a comunicação íntima, e nos preocupamos com o observador e não com o Pai, com quem falamos. Portanto, os fariseus não podiam comunicar-se com o Pai quando reuniam um auditório para ouvi-los a orar. A oração é comunicação em particular.

Os homens tinham não só o padrão estabelecido pelos fariseus que acreditavam na oração em público, mas também o padrão fixado pelos devotos dos deuses pagãos; para eles, a eficácia da oração dependia da repetição. Os pagãos pensavam que seus deuses estavam banqueteando e tinham de ser induzidos a deixar a mesa do banquete; ou estavam ocupados na busca do prazer e não tinham tempo para ouvir os que oravam a eles; ou estavam dormindo e tinham de ser despertados. Pensavam, pois, que deviam repetir e repetir suas orações porque nalgum momento, quando seus deuses não estivessem comendo, bebendo, divertindo-se ou dormindo, poderiam ouvir. Os pagãos nunca sabiam quando seus deuses ouviriam os seus clamores.

No entender de alguns, Deus estava preocupado com seus próprios problemas e não tinha tempo para seus filhos; portanto, era melhor que orassem repetitivamente, porque em algum momento inesperado, podiam atrair a atenção divina. O Senhor disse: "E, orando, não useis de vãs [vazias] repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos" (v. 7).

A falácia do conceito gentio de Deus é tão evidente que Jesus disse: "Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais" (v. 8). Um pai fiel pressente as necessidades dos filhos. Um pai experiente não precisa ser informado da necessidade do filho porque ele a previu. A oração não se destina a informar a Deus de nossas necessidades; como Pai fiel, ele as conhece. A oração é para dizer a Deus que nós conhecemos nossa necessidade, e que confiamos nele para a devida providência. Uma vez que Deus já conhece a necessidade de seus filhos e está disposto a supri-la, não é preciso informá-lo pela repetição interminável. A oração não precisa ser pública, porque a comunicação se faz em secreto. Não há necessidade de repetições vâs, porque Deus já sabe.

Então, depois que Jesus criticou as falsas práticas dos fariseus, passou (vv. 9-13) a dar-nos um modelo de oração, embora não destinada a ser repetitória. Nosso Senhor mostrou aos discípulos as áreas da vida que devem ser objeto de oração. As palavras de nosso Senhor definiram cinco áreas de interesse de nosso Pai, com as quais devemos ocupar-nos.

Primeiro, o crente está interessado na pessoa de Deus. "Portanto, vós orareis assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado [santo, honrado, respeitado] seja o teu nome" (v. 9). Deus é nosso Pai. Ele é o soberano Criador ("que estás nos céus"). Ele é exaltado sobre todas as coisas. É um Pai cujo nome está acima de tudo, e sobre todos, perante quem seus filhos se curvam em reverência, respeito, amor e confiança ("santificado seja o teu nome"). Estamos ocupados, antes de tudo, com uma Pessoa.

Segundo, devemos estar interessados no programa de Deus. "Venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu." No Antigo Testamento Deus havia prometido a vinda do Senhor Jesus Cristo. Como Salvador e Rei, ele estabeleceria um reino na terra sobre o qual governaria. O programa de Deus concentrava-se numa Pessoa que ele pretendia entronizar de modo que governasse como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Tal era a esperança de Israel. O filho de Deus preocupa-se não tanto com seus próprios planos e desejos quanto com o definido plano de Deus de entronizar a Jesus Cristo. Toda a história até ao fim dos tempos encaminha-se para a entronização de Jesus Cristo, que se assentará no trono de Davi. O cristão preocupa-se não com suas próprias circunstâncias e necessidades, mas com aquilo que ocupa o coração de Deus: a exaltação de seu Filho.

Terceiro, o filho de Deus está interessado na provisão de Deus para suas necessidades. "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje." O filho confia no Pai dia a dia. Para manter-nos confiantes, Deus não enche nossa despensa e nosso "freezer" de modo que vamos a ele uma ou duas vezes por ano para reabastecer. "Dá-nos hoje o pão para hoje." Nossas necessidades podem variar de um dia para o outro. Podemos ter necessidades físicas, mentais, emocionais ou espirituais. A graça de Deus prove quando confiamos, mas apenas um dia por vez. Por isso, o filho de Deus, em sua comunicação com o Pai, está interessado nas necessidades do dia.

Quarto, o filho de Deus preocupa-se com a pureza pessoal: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores." Uma vez que Deus proporcionou o perdão para o filho pecador, esse filho beneficia-se do perdão para os pecados diários. Se perdoamos aos que nos ofendem, quanto mais não perdoará Deus aos filhos que buscam seu perdão? O filho de Deus está interessado na santidade pessoal.

Quinto, o cristão está interessado na proteção de Deus. "Não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal." Segundo promessa do Antigo Testamento, Deus ordenaria a seus anjos que nos sustentassem em suas mãos para não tropeçarmos nalguma pedra. Os olhos de Deus estão sobre nós e nos protegem enquanto andamos neste mundo e nos tornamos co-herdeiros com Cristo. Confiamos em que ele nos guarde de cair em pecado quando assediados pela tentação, e que nos livre quando atacados pelo maligno.

Essas são questões com as quais o filho de Deus deve ocupar-se. Um indivíduo em cuja vida a oração não desempenha papel importante está em desarmonia com o coração de Deus. Pois, como Pai, ele deseja o amor dos filhos; se o amor não é comunicado, o coração daquele que ama não fica satisfeito. Oração é comunicação entre o filho e o Pai concernente à pessoa de Deus, ao programa de Deus, à provisão de Deus, à proteção de Deus, e à nossa pureza. Que Deus faça de nós pessoas que aprendam a orar.

J. Dwight Pentecost - O Sermão da Montanha

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Removendo o Véu

Por A. W. Tozer - "À Procura de Deus"

Deus nos criou para seu prazer, e nos formou de modo que nos juntamente com ele, possamos, em divina comunhao, usufruir daquela doce e misteriosa uniao de personalidades gêmeas. Sua finalidade foi que o víssemos e vivêssemos com ele, captando a vida de seu olhar. Nós, porém, participamos daquela "revolta horrenda" a que se refere Milton, ao descrever a rebeldia de Satanás e suas hostes. Rompemos com Deus. Deixamos de obedecê-lo e amá-lo, e, por nos sentirmos culpados e temerosos, estamos sempre fugindo da sua presença.


Toda a obra de Deus, na redenção, tem por finalidade desfazer as trágicas consequências dessa calamitosa rebelião, levando-nos de volta a um relacionamento correto e eterno com Ele. Isso exigia que o problema do nosso pecado fosse resolvido de modo a satisfazer a justiça, para que pudéssemos ser plenamente reconciliados, e nos fosse aberto o caminho para voltarmos a uma comunhão consciente com Deus, a fim de vivermos novamente em sua presença. Assim, através da atuação do Espírito Santo em nosso íntimo, Deus desperta em nós o desejo de voltar para ele. Isso se faz sentir inicialmente pela falta de paz em nosso coração, o qual passa a experimentar um profundo anseio pela presença de Deus, e entao dizemos a nós mesmos: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai." (Lc 15.18.) Esse é o primeiro passo, e conforme disse o sabio chines Lao-tze: "Uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo."


O mundo está perecendo por não conhecer a Deus, e a Igreja padece fome espiritual por não contar com a sua presença. A maioria de nossos males religiosos seria curada instantaneamente se entrássemos na presença divina, em autentica experiencia espiritual, tornando-nos subitamente conscios de que estamos em Deus e de que Deus esta em nos. Isso nos tiraria de nossa lamentável estreiteza de espírito, e expandiria os nossos coracões. Consumiria no fogo as impurezas existentes em nossa vida, como os insetos e os fungos da sarça ardente foram queimados pelo fogo que nela crepitava.


Que grandeza infinita, e que oceano inexplorado é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é eterno, o que significa que antecede o tempo e vive inteiramente independente do mesmo. O tempo começou com ele, e com ele terminará. Deus não paga tributo ao tempo, nem dele sofre qualquer variação. Ele é imutável, o que quer dizer que ele nunca mudou nem jamais poderá mudar em coisa alguma. Para mudar, teria que piorar, ou melhorar. Mas não pode fazer nem uma nem outra coisa, pois, sendo perfeito, não pode tornar-se mais perfeito ainda, e se tivesse de tornar-se menos perfeito, seria menos que Deus. Ele é onisciente, o que equivale a dizer que conhece, com um ato livre e sem esforéo, toda a materia, todo o espirito, todas as relações e todos os acontecimentos. Ele não tem passado, nem futuro, Ele é, e nenhum dos termos qualificadores, limitadores, usados acerca das criaturas, aplica-se a Ele. Dele são o amor, a misericórdia e a justiça, e uma santidade tão inefável que nenhuma comparação ou figura pode expressar.

Somente o fogo fornece uma pálida idéia de sua santidade. Foi em chamas de fogo que ele apareceu na sarça ardente; na coluna de fogo ele habitou durante a longa jornada pelo deserto. O fogo que brilhava entre as asas dos querubins, no Santo dos Santos, era chamado de "glória" da presença divina, durante todos os anos de glória da História de Israel; e, quando o Antigo cedeu lugar ao Novo, ele veio, no Pentecoste, em forma de línguas de fogo, cada uma das quais pousou sobre um discipulo.

Spinoza escreveu acerca de amar a Deus intelectualmente, e existe um pouco de verdade no que ele disse; mas o amor mais excelente do homem para Deus nao é o intelectual, e, sim, o espiritual. Deus é Espirito., e só o espírito do homem pode realmente conhecê-lo. No mais profundo do espírito do homem deve crepitar a chama desse amor, pois do contrário não existirá ali um verdadeiro amor a Deus. Os grandes do reino de Deus tem sido aqueles que amam a Deus mais do que os outros. Todos sabemos quem são eles, e lhes prestamos tributo com satisfação, devido a intensidade e sinceridade de sua devoção ao Senhor. Se apenas pensarmos em seus nomes, a lembrança nos evocará perfumes como mirra, aloés e cássia, vindos de palácios de marfim.

Os corações que "estao cheios de amor a Deus são os que se demoram na presença divina e contemplam de olhos bem abertos e atentos a majestade do Senhor. Os homens cujo coração abriga tal amor, possuem uma qualidade especial que os torna desconhecidos ou incompreendidos pelos outros. Geralmente, falam com grande autoridade espiritual. Tendo estado na presença de Deus, anunciam o que viram ali. Eles tem sido profetas, e não escribas, pois o escriba fala do que leu, mas o profeta fala do que viu!


A resposta que geralmente se ouve, de que simplesmente estamos "frios", nao esclarece os fatos. Há algo que é muito mais sério do que a frieza de coração; algo que pode estar por baixo dessa frieza e que talvez seja a sua causa. 0 que é? Que poderia ser senão a presença de um véu em nossos corações? Um véu que não foi retirado com o primeiro, mas que continua ali, barrando o caminho da luz e escondendo de nós a face de Deus? Trata-se do véu de nossa antiga e decaída natureza, que continua bem viva, em nosso íntimo, sem ser condenada, sem haver passado ainda pela crucificação e pelo repúdio total. Trata-se do véu compacto de uma vida egocêntrica, que nunca quisemos realmente reconhecer como tal, da qual intimamente nos sentimos envergonhados, e por isso mesmo nunca a trazemos perante o tribunal da cruz. Esse véu escuro não é por demais misterioso, nem é difícil de ser identificado. Temos tão-somente de sondar nosso proprio coração, e o acharemos ali; costurado, remendado e consertado, talvez, mas sempre presente — um inimigo de nossa vida, um verdadeiro obstáculo no caminho de nosso crescimento espiritual.


Sei que esse veu não é nada bonito, nem tampouco nos agrada falar a respeito dele. Dirijo-me, porém, as almas sedentas que estão resolvidas a seguir a Deus, e creio que elas não retrocederão, somente porque o caminho temporariamente as levará por montes sombrios. O seu anseio por Deus afirma que continuarão a procura do Senhor. Enfrentarão os fatos, por mais desagradáveis que sejam, e suportarão a cruz em face da alegria que lhes esta proposta. Por isso, animo-me a apontar os fios que formam a textura desse véu da alma.

Não esqueçamos isto: quando se fala em rasgar o véu, fala-se figuradamente, e a idéia se nos torna poética e quase agradável; em realidade, entretanto, nada há de agradável nisso. Na experiência humana, esse veu é feito de um tecido espiritual vivo; compõe-se da substância sensível que também permeia todo o nosso ser, e tocar no mesmo é tocar em nosso ponto mais doloroso. Rasgá-lo, é despedaçar-nos, é ferir-nos e fazer-nos sangrar. Falar de modo diferente é fazer com que a cruz nem seja cruz, que a morte nem morte seja. Nunca foi divertido morrer. Despedaçar o tecido delicado e suscetível de que consiste a vida, jamais podera dar-nos outra sensação que não a de dor aguda e profunda. Não obstante, foi justamente isso que a cruz fez a Jesus, e é o que a cruz fará a todo o filho de Deus, que quiser ser liberto do "eu".

Tenhamos o cuidado de não subestimar a importância da vida espiritual, achando que nós mesmos podemos rasgar o véu. Deus é quem deve fazer tudo em nosso lugar. Nossa parte consiste em ceder e confiar. E necessário que confessemos, abandonemos e repudiemos uma vida autodirigida, e passemos a considera-la crucificada. Urge, entretanto, distinguir entre uma "aceitação" ociosa e uma verdadeira operação de Deus. Devemos perseverar até que a obra seja realizada. Não ousemos nos contentar com uma doutrina certinha de autocrucificação. Isso seria imitar a Saul, que poupou as melhores ovelhas e vitelas.

A cruz é rude e mortal, mas tambem é eficaz. Não conserva sua vítima ali pendurada para sempre. Chega o momento em que sua obra termina, e a vítima morre. Após isso vem a ressurreição, em glória e poder, e a dor é esquecida em face da alegria de haver sido removido o véu, e de termos, numa experiência real do espírito, chegado até a presença do Deus vivo.

TENTAÇÃO E PROVAÇÃO

O Estação Jovem está postando um texto que foi retirado do site "http://www.ebdonline.com.br/estudos/tentacao.htm" para complementar o estudo que foi discutido na Escola Bíblica Dominical do dia 24/10.

TENTAÇÃO E PROVAÇÃO



TENTAÇÃO:


1. É o impulso inicial que a pessoa sente para cometer pecados: Rm 7.18-19
2. Origem: satânica e carnal: Mt 4.1, Jo 13.2, Tg 1.14. “Tríplice batalha”: o diabo, o mundo e a carne. Leia Jo 8.44, 10.10, 1 Jo 2.15-17, Gl 5.17-21.
3. Visa sempre o mal, ou seja, tirar-nos da dependência de Deus: Mt 4.3-6, 8-9
4. Não é pecado em si (Jesus foi tentado): Hb 4.15


PROVAÇÃO:

1. É o exercício de disciplina e correção, para aperfeiçoamento da fé: 1 Pe 4.12
2. Origem divina: Gn 22.1, Hb 12.6-10
3. Visa fortalecer a fé: Tg. 1.2-4
4. A provação vem, quase sempre, através do sofrimento: 1 Pe 2.20

Pode ocorrer provação e tentação simultaneamente? Sim. Veja Jó. Deus permitiu a provação mas Satanás o quis derrubar de sua fidelidade ao Senhor: Jó 2.6-10.


A SEQUÊNCIA DA TENTAÇÃO NÃO RESISTIDA (Tg 1.13-15):

1. PENSAMENTO
2. IMAGINAÇÃO
3. DESEJO
4. DECISÃO
5. AÇÃO (pecado)
6. MORTE (separação de Deus)


A SEQUÊNCIA DA VITÓRIA NA PROVAÇÃO (Tg 1.2-4):

1. AFLIÇÕES
2. FÉ EM JESUS
3. PERSEVERANÇA
4. VITÓRIA
5. VIDA
6. AFLIÇÕES


COMO OBTER VITÓRIA SOBRE A TENTAÇÃO?

1. Afastando-nos das fontes da mesma: 1 Co 6.18, 2 Tm 2.22
2. Resistir á sua sedução: Tg 4.7
3. Vigiar e orar: Mt 26.41
4. Levar todo pensamento á obediência de Cristo: 2 Co 10.5
5. Andar no Espírito: Gl 5.16; apropriar-se, pela fé, dos recursos de Deus: 1 Co 10.13
6. Manter comunhão constante com os irmãos: Cl 3.16
7. Estar com a mente cheia da Palavra de Deus: Fp 4.8-9
8. Buscar a santidade do Senhor: 1 Ts 5.23-24; servindo-O e adorando-O: Sl 56.10-13


QUE FAZER, QUANDO CEDEMOS Á TENTAÇÃO?


1. Confessar e abandonar o pecado: Pv 28.13
2. Se houver outras pessoas envolvidas, precisamos acertar com elas: Mt 5.23-24
3. Confiar que o sangue de Jesus é suficiente para garantir o perdão e a purificação: 1 Jo 1.9


Não precisamos ficar carregando um fardo pesado dos pecados cometidos. Uma vez confessado o pecado, devemos nos apropriar do perdão oferecido por Deus através do sangue de Jesus e continuar a viver de tal maneira que Deus seja glorificado.

Faça GUERRA!!!

Video retirado do site "Voltemos ao Evangelho"

video

Vale a pena assistir!

John Piper - Faça Guerra!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Seguindo a Deus de perto


Livro - À procura de Deus
A. W. Tozer 


A doutrina da justificação pela fé — uma verdade bíblica, e uma benção que nos liberta do legalismo estéril e de um inútil esforço próprio — em nosso tempo tem-se degenerado bastante, e muitos lhe dão uma interpretação que acaba se constituindo um obstáculo para que o homem chegue a um conhecimento verdadeiro de Deus. O milagre do novo nascimento esta sendo entendido como um processo mecânico e sem vida. Parece que o exercício da fé já não abala a estrutura moral do homem, nem modifica a sua velha natureza. É como se ele pudesse aceitar a Cristo sem que, em seu coração, surgisse um genuíno amor pelo Salvador. Contudo, o homem que não tem fome nem sede de Deus pode estar salvo? No entanto, e exatamente nesse sentido que ele é orientado: conformar-se com uma transformação apenas superficial.

Os cientistas modernos perderam Deus de vista, em meio às maravilhas da criação; nós, os crentes, corremos o perigo de perdermos Deus de vista em meio as maravilhas da sua Palavra. Andamos quase inteiramente esquecidos de que Deus é uma pessoa, e que, por isso devemos cultivar nossa comunhão com Ele como cultivamos nosso companheirismo com qualquer outra pessoa. É parte inerente de nossa personalidade conhecer outras personalidades, mas ninguém pode chegar a um conhecimento pleno de outrem através de um encontro apenas. Somente após uma prolongada e afetuosa convivência é que dois seres podem avaliar mutuamente sua capacidade total.

Todo contato social entre os seres humanos consiste de um re conhecimento de uma personalidade para com outra, e varia desde um esbarrão casual entre dois homens, ate a comunhão mais intima de que e capaz a alma humana. O sentimento religioso consiste, em sua essência, numa reação favorável das personalidades criadas, para com a Personalidade Criadora, Deus. "E a vida eterna e esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste."

Deus e uma pessoa, e nas profundezas de sua poderosa natureza ele pensa, deseja, tem gozo, sente, ama, quer e sofre, como qualquer outra pessoa. Em seu relacionamento conosco, ele se mantém fiel a esse padrão de comporta-mento da personalidade. Ele se comunica conosco por meio de nossa mente, vontade e emoções. O cerne da mensagem do Novo Testamento e a comunhão entre Deus e a alma remida, manifestada em um livre e constante intercambio de amor e pensamento.

Nós somos em miniatura, (excetuando os nossos pecados) aquilo que Deus e em forma infinita. Tendo sido feitos a sua imagem, temos dentro de nos a capacidade de conhecê-lo. Enquanto em pecado, falta-nos tão-somente o poder. Mas, a partir do momento em que o Espírito nos revivifica, dando-nos uma vida regenerada, todo o nosso ser passa a gozar de afinidade com Deus, mostrando-se exultante e grato. Isso é este nascer do Espírito sem o qual não podemos ver o reino de Deus. Entretanto, isso não e o fim, mas apenas o começo, pois e a partir dai que o nosso coração inicia o glorioso caminho da busca, que consiste em penetrar nas infinitas riquezas de Deus. Posso dizer que começamos neste ponto, mas digo também que homem nenhum já chegou ao final dessa exploração, pois os mistérios da Trindade são tão grandes e insondáveis, que não tem limite nem fim.

Encontrar-se com o Senhor, e mesmo assim continuar a buscá-lo, e o paradoxo da alma que ama a Deus. E um sentimento desconhecido daqueles que se satisfazem com pouco, mas comprovado na experiência de alguns filhos de Deus que tem o coração abrasado.

Se examinarmos a vida de grandes homens e mulheres de Deus, do passado, logo sentiremos o calor com que buscavam ao Senhor. Choravam por ele, oravam, lutavam e buscavam-no dia e noite, a tempo e fora de tempo, e, ao encontrá-lo, a comunhão parecia mais doce, apos a longa busca. Moises usou o fato de que conhecia a Deus como argumento para conhecê-lo ainda melhor. "Agora, pois, se achei graça aos teus olhos, rogo-te que me facas saber neste momento o teu caminho, para que eu te conheça, e ache graça aos teus olhos" (Ex 33.13). E, partindo dai, fez um pedido ainda mais ousado: "Rogo-te que me mostres a tua gloria" (Ex 33.18). Deus ficou verdadeiramente alegre com essa demonstração de ardor, e, no dia seguinte, chamou Moises ao monte, e ali, em solene cortejo, fez toda a sua gloria passar diante dele.

A vida de Davi foi uma continua ânsia espiritual. Em todos os seus salmos ecoa o clamor de uma alma anelante, seguido pelo brado de regozijo daquele que é atendido. Paulo confessou que a mola-mestra de sua vida era o seu intenso desejo de conhecer a Cristo mais e mais. "Para o conhecer. . ." (Fp 3.10), era o objetivo de seu viver, e para alcançar isso, sacrificou todas as outras coisas. "Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor: por amor do qual, perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo" (Fp 3.8).

É uma tragédia que, nesta época de trevas, deixemos só para os pastores e líderes a busca de uma comunhão mais intima com Deus. Agora, tudo se resume num ato inicial de "aceitar" a Cristo (a propósito, esta palavra não e encontrada na Bíblia), e dai por diante não se espera que o convertido almeje qualquer outra revelação de Deus para a sua alma. Estamos sendo confundidos por uma lógica espúria que argumento que, se já encontramos o Senhor, não temos mais necessidade de buscá-lo. Esse conceito nos e apresentado como sendo o mais ortodoxo, e muitos não aceitariam a hipótese de que um crente instruído na Palavra pudesse crer de outra forma. Assim sendo, todas as palavras de testemunho da Igreja que significam adoração, busca e louvor, são friamente postas de lado. A doutrina que fala de uma experiência do coração, aceita pelo grande contingente dos santos que possuíam o bom perfume de Cristo, hoje e substituída por uma interpretação superficial das Escrituras, que sem dúvida soaria como muito estranha para Agostinho, Rutherford ou Brainerd.

Em meio a toda essa frieza existem ainda alguns — alegro-me em reconhecer — que jamais se contentarão com essa lógica superficial. Talvez até reconheçam a forca do argumento, mas depois saem em lagrimas a procura de algum lugar isolado, a fim de orarem: "Ó Deus, mostra-me a tua gloria." Querem provar, ver com os olhos do íntimo, quão maravilhoso Deus é.

Uma vida crista estagnada e infrutífera é resultado da ausência de uma sede maior de comunhão com Deus. A complacência é inimigo mortal do crescimento cristão. Se não existir um desejo profundo de comunhão, não haverá manifestação de Cristo para o seu povo. Ele espera que o procuremos. Infelizmente, no caso de muitos crentes, é em vão que essa espera se prolonga.

Na realidade, o que precisamos é de Deus mesmo. O hábito condenável de buscar "a Deus e . . . " é o que nos impede de encontrar ao Senhor na plenitude de sua revelação. E no conetivo "e" que reside toda a nossa dificuldade. Se omitíssemos esse "e", em breve acharíamos o Senhor, e nele encontraríamos aquilo por que intimamente sempre anelamos.

Não precisamos temer que, se visarmos tão-somente a comunhão com Deus, estejamos limitando nossa vida ou inibindo os impulsos naturais do coração. O oposto é que é verdade. Convém-nos perfeitamente fazer de Deus o nosso tudo, concentrando-nos nele, e sacrificando tudo por causa dele.